Invasão à distância – Por Miriam Chaudon


Casa de Pedra em Bagé – Cume da via Tarântulas – Foto: Fabrício Domingues.

 

Pois é, esse dia amanheceu nublado.
Sem sol.
Não apenas no céu.
Teria tudo para ser ensolarado dentro de mim também; mas não foi assim.
Nem sempre as coisas acontecem como desejamos.
E nós mulheres somos assim, sensíveis até com a mudança de uma brisa….hehehe!
Será que vai dar escalada hoje?

 

Mas eu estou aqui para falar desse belo e importante dia que lembramos de todas as mulheres desse mundo maravilhoso,
embora nem sempre justo.
Mas nós mulheres somos assim mesmo, frágeis e fortes.
Relembrando uma frase muito significativa para a data:
“Sou como você me vê.
Posso ser leve como uma brisa
ou forte como ventania.
Depende de quando e como me vê passar.”
Estas palavras da Clarice Lispector sintetizam muito bem a natureza feminina.

 

Nós conseguimos ter o mundo inteiro dentro de nós.
Temos a oportunidade de carregar a vida em nosso íntimo e povoar todos os cantos do mundo!
Compreendemos com mais facilidade a diversidade humana por sermos assim tão “mil e uma utilidades”, e sabermos “abraçar” um mundo de complexas impressões e sensações.

 

E eu não sou diferente de minhas amigas, irmãs, parceiras ou escaladoras.
Minhas semelhantes.
Levo dentro de mim uma “paixão em conhecer o mundo” e o maravilhoso sentimento de me encantar com pequeninas manifestações dessa vida maravilhosa.
Tenho dentro de mim um desejo de natureza.

Barra da Lagoa em Florianópolis – Foto: Daniel Fernandes.

 

Recanto dos Padres/Mariscal em Santa Catarina – Foto: Daniel Fernandes
A convite da Adriana Mello, eu estou aqui para falar de escalada.
Estou tão longe aí do Rio de Janeiro mas querendo me conectar com esse movimento Invasão Feminina, que a cada ano que passa está mais bonito e com mais mulheres escaladoras se juntando para subir pedrinhas e trocar experiências.
Mas logo eu que nem escaladora me considero?
Apenas admiradora, como um dia escrevi.
Tenho gosto por estar na natureza; de não me importar com os cabelos sem pentear, alguns dias sem banho, as unhas sujas de terra, o chulé das meias, as picadas dos mosquitos (que particularmente me adoram ).
Também não ligo muito para a coleção de marcas roxas das pancadas e arranhões, tombos e escorregões que inevitávelmente acontecem quando estou caminhando pelas montanhas ou escalando.

 

Então qual o motivo de estar aqui , neste Blog  das escaladoras do Brasil, para escrever sobre algo que nem sei fazer direito?
Talvez pelo entusiasmo e o brilho em meus olhos que a Adriana Mello tenha percebido de longe, apenas por uma foto.
Ela, quem sabe, notou que por trás dessa mulher, nascida nos anos 60, ainda reste uma vida de sonhos e emoções que me fazem querer recuperar um tempo que não volta mais. Um tempo em que eu tinha em minha retina diariamente as montanhas e o mar do Rio de Janeiro para me inspirar, mas que naquele tempo a escalada não fazia parte de minha vida.

 

Agora, como que querendo resgatar uma felicidade “esquecida”, eu vou atrás desse sonho de subir pedrinhas e de estar rodeada de natureza. Posso até chegar na base de uma via e nem ser capaz de escalar, mas só de estar ali olhando para toda aquela beleza e de estar caminhando por entre montanhas, por trilhas na florestas, eu sei que é uma das coisas nessa vida que me faz sentir bem.

 

Agora estou bem longe de vocês aí do Rio. Moro no Rio Grande do Sul mas mesmo aqui de longe vou acompanhar  em pensamento e desejar uma linda e colorida Invasão! Vou vestir minha camiseta das Mulheres na Montanha, mesmo que chova por aqui como diz a previsão. Vou realizar algo em homenagem a todas vocês, escaladoras ou não. Pode ser que eu consiga escalar, pode ser uma pedalada ou uma caminhada.

 

Então, deixo aqui o meu abraço e carinho a todas  escaladoras do Brasil, em especial ao grupo que vai estar  neste dia 10 de março com os pés e as mãos no morro da Urca.

Também fica o desejo que nós, mulheres, independente do que escolhemos em realizar nesta vida, que seja feito com entusiasmo e amor e que a gente não permita  nunca que cortem nossos sonhos!

Boas e lindas escaladas!

 

Miriam Chaudon.

5 Comments

  1. Miriam , muito lindo o que escreveu , e é isso mesmo, também sou nascida na geração dos anos ” 60 ” e também comecei a escalar mais tarde , mas eu acho que a sintese é essa mesma, é a de sermos felizes, de estar aonde nos sentimos bem, de termos muitos momentos felizes com os amigos numa escalada, numa viagem… dar risadas , estar feliz , quer melhor coisa que isso na nossa vida ??? E com certeza quando vi a sua foto , ali na pagina , fiquei muito feliz e mais ainda por mesmo voce estando tão longe da gente, nos sentirmos perto !!! Muito obrigada por tudo !!! beijao e muitas escaladas na sua vida !!!

  2. Que texto bonito, Miriam!!!! É tão bom saber que existem mulheres vivendo intensamente, como você e minha filha Adriana! Continue assim, não importa a idade (e isso falo de cátedra 🙂 Pode ter certeza de que você estará participando desta nossa invasão — mesmo de longe!
    Um beijo

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