Conquista da Saracura (Pedra do Elefante) – Foto: Helena Fagundes

Ana é uma das melhores e mais completas escaladoras que conheço. Grande amiga e parceira. Assistir essa niteroiense escalando é um verdadeiro espetáculo e suas ações pela preservação da Pedra do Elefante são de tirar o chapéu (ou o capacete). Me sinto honrada em dividir esta entrevista com vocês…

Idade?
32

Nasceu onde?
Niterói-RJ

Profissão?
Engenheira Agrônoma (Gestora Ambiental)

Tempo de escalada?
17 anos

Como foi que surgiu?
Adolescente ainda, minha mãe me matriculou num tal Clube de Aventura da escola, onde tivemos a oportunidade de experimentar vários esportes ao ar livre…
E campeonatos…fala um pouco da sua experiência!

Experiência quase zero! No início quando comecei a treinar no muro da Patrícia do Colégio Salesianos, a galera botava pilha, mas nunca levei muito a sério (é complicado escalar sendo cobrada pela performance, e por isso mesmo é uma experiência enriquecedora)… ah, participei dos primeiros campeonatos em rocha do Rio, quando isso ainda era viável… foi maneiro… e os mais atuais foram também divertidos, com a geração nova, apesar de NUNCA ter conseguido completar todas as etapas do Estadual (rsrsrs).


Serra Caiada – Foto: Cauí / Minimus – Foto: Ralf Cortês

Monumento Natural da Pedra do Elefante: conta um pouco deste processo?
Desde que viemos (eu e Ralf) pra Serra, fomentamos a criação de uma Unidade de Conservação no Taquaril, já que é uma paisagem linda e se trata de um manancial importante… os moradores compraram a briga, e depois o poder público e os escaladores também… hoje, até empresas ajudam na recuperação da área que acabou sendo decretada com direito a Ministro Minc e tudo! No meio desse processo, que já dura 6 anos, eu acabei indo trabalhar na Secretaria de Meio Ambiente de Petrópolis e me tornei gestora do MONA-PE. Hoje, depois de uns 10 anos trabalhando na área ambiental, cheguei à conclusão de que é mais difícil do que pensava… não que esteja desistindo, mas talvez mudando de estratégia. As pessoas hoje gostam da Natureza muito mais como um símbolo, uma moda… as ações parecem muitas, mas é muito mais marketing (e isso em todas as esferas) do que mudanças significativas. Acho que o mérito da nossa geração é ter introduzido novos conceitos na linguagem (na mídia, na ciência)… mas a maioria ainda não interiorizou o problema para pensar em soluções… a questão natural não se trata só de bichos e plantas, mas de vivermos melhor, TODOS.

Para você ser uma escaladora completa, só falta entrar num big wall…já pensou a respeito? 🙂
Completa é difícil hoje, Ro, com todas essas modalidades e a complexidade que há na escalada (às vezes da vontade de me dividir em várias pra me dedicar a tudo ao mesmo tempo hehe). Na verdade, gosto mesmo é de escalar em livre, mas você sabe que sou movida a pilha, e basta uma boa parceira botar pilha forte que eu topo a empreitada!

Gostaria que nos falasse do Abrigo do Elefante. foi inaugurado há qto tempo, da Pedra do Elefante, com sua variedade de vias, de estilos, de projetos e opções incríveis como cachoeiras e banhos de rio.
O Ralf começou a trabalhar o lugar desde 2001. O abrigo foi inaugurado em 2006, mas desde quando viemos morar nele (2005), começamos a receber amigos… o abrigo é uma idéia exclusiva do Ralf… eu embarquei e, modéstia a parte, ajudei (e continuo ajudando) muito no empreendimento. Assim como as vias do Elefante são na maioria idealizadas pelo Ralf… eu ajudei em muitas delas, e conquistei em algumas. Acho que as linhas aqui são óbvias (para o bom observador), concedidas pela natureza, mas certamente elas refletem os estilos dos conquistadores… por isso há vias de parede, esportivas, em móvel, bolderes, técnicas e explosivas. Outras possibilidades existem, linhas eternas… e novos conquistadores vêm surgindo, trazendo a variedade necessária ao desenvolvimento do esporte.

Hoje temos 55 vias de tamanhos e estilos variados e 140 lances de bolder, do 3º a possíveis 11os, do E2 ao E5, D1 ao D4, em móvel e fixas, e o abrigo já contou com 344 estadias! Vejam detalhes em  www.abrigodoelefante.com

No verão, a pedida é bolder na sombra e banho de rio pra refrescar… você chega na temporada forte e de cuca fresca (rs)


Brejo – Foto: Cauí

Você começou fazendo muro, depois boulder, falésias…vias esportivas. hoje você tá entrando em vias longas e expostas e conquistas. conta um pouco de como foi essa evolução?
Você confundiu a ordem: comecei em parede com o tal Clube de Aventura (escalávamos em Itacoatiara, no Pão de Açúcar e Babilônia, fora as caminhadas), quando também conheci algumas falésias do Rio e Niterói; mas experimentei a esportiva mesmo depois que comecei a treinar no muro da Patrícia, já com dois anos de escalada; depois, na Universidade Rural, continuei treinando em uma pedreira, e vinha fim-de-semana fazer falésias e paredes no Rio; morei 1 ano nos EUA quando tive a oportunidade de fazer minha primeira parede toda em móvel; o bolder na verdade foi o último a aparecer (já que não conhecia essa prática “naquela época”), e a partir do ano de 2002 passei a curtir bastante.

Essa história toda pode parecer longa, mas ela foi pouco intensa até conhecer o Ralf (2004), que foi quem me contaminou com o vício da escalada. Daí eu fiz um intensivão em várias modalidades… inclusive me aventurei nas conquistas, contando com as parceironas que apareceram. Essa história de cordada feminina também foi uma novidade maravilhosa pra mim! Descobri um novo prazer na atividade, que é encarar as paredes com as amigas, pessoas que escalam seu nível, que passam venenos parecidos, são compreensivas e se entendem por serem mulheres… hoje descobri que é melhor ter parceiras na esportiva e nos bolderes também.
Concluindo, essa foi minha evolução até agora, bem diferente do que imaginou, né? Hoje tenho certeza que evolução na escalada não tem nada a ver com tamanho, dificuldade, exposição, força ou técnica isolados, mas sim com o desafio que cada um se propõe… é uma decisão completamente individual, apesar de depender também das boas parcerias. Na verdade, a escalada nos dá a oportunidade de nos tornar indivíduos melhores.

Gostaria de deixar um recado pra mulherada?
Não tenho dúvidas quanto ao desempenho da mulherada no esporte… alguém já me falou que ele é essencialmente feminino! Além do mais, se fazem longas amizades através dele. Sinto nas escaladoras que mais admiro, uma sinceridade na sua relação com a escalada, e cumplicidade com as parceiras.
Então, esse é o meu recado: pense em se tornar um indivíduo melhor através da escalada, e aquela via, aquele grau, aquele cume a ser alcançado, virá de um jeito ou de outro… e você vai ver que atingi-lo não é exatamente o auge da experiência, mas sim o processo o é.


Foto 1 – Ralf Cortês / Unha – Foto: Helena Fagundes

Entrevista concedida ao Site Mulheres na Montanha

Feita por  Rosane Camargo


Veja aqui {+} a reflexão feita por Ana Alvarenga, sobre o Ano do Coelho.