Da escalada e do Amor

 

Nesses dias tenho pensado muito sobre força, determinação e prática, todos no sentido estrito das palavras. Os pensamentos voaram depois dos seis últimos meses de escaladas. Essas últimas cordadas têm demandado mais força e treino.  Subir uma rocha não é apenas pé a pé, mão a mão, agarra a agarra. Cada lance é cabeça, é psicológico, é determinação, e além de tudo, é amor e tesão. Sem esses últimos ingredientes não podemos encarar, são deles que vêm todo o resto. E o resto… bem… o resto chega a ser poesia.

 

Sim, poesia, porque tem que estar apaixonado pela prática para permanecer na escalada. É um amor ao estilo de vida, à aventura e a si mesmo. E esse amor tem que ser cultivado continuamente com o treino. É como em qualquer relacionamento amoroso, começa com aquele tesão, aquela empolgação de estar colado sempre, até que, com o passar do tempo, tudo se acalma. Quando começamos a escalar queremos estar sempre praticando e evoluindo, mas depois, com o passar dessa fase, a gente se acalma. E, não apenas nos sossegamos, mas perdemos a força e a dedicação de antes. Contudo, de fato, isso não é ruim. Porque com o andar da idade o relacionamento amadurece, e, então, você percebe que o grande afã deu lugar para um sentimento tranquilo, calmo.

 


Igatu – Chapada

 

Quando passei a escalar menos, perdi de fato a empolgação do início, mas meu amor não diminuiu. Realmente fiquei frustrada quando percebi que, ao ficar sem treinar, não guiava mais as mesmas vias e não tinha mais a mesma força. Vi-me extremamente triste e sem entusiasmo. Foi como naquela relação onde depois de transar você vê que não é mais aquela mesma coisa… Então decidi fazer um pacto: dedicar-me para não perder o ânimo. Comprei, então, equipamentos novos e até roupas para escalar. Sei que você vai me entender: estrear minha própria corda novinha e cor de lilás, foi como usar aquela lingerie nova e da cor…!!! Comecei também a viajar mais para escalar, novos lugares também apimentam a relação. Agora eu e meu parceiro aproveitamos qualquer feriadinho para ir à montanha. E estamos planejando nosso aconchegante murinho. Moro em um lugar onde o setor mais próximo de escalada fica a cinco horas de carro. Ou seja, isso não me permite escalar todo fim de semana.  Ainda não tenho muro para treinar e ainda não sei conquistar vias (ainda!). Além disso, também não possuo tempo e financiamento suficientes que me permitam viajar sempre. Mas estou me esforçando, me condicionando. E cada coisa vem em seu momento certo.
Esse esforço, porém é tão sereno e tão consciente que não me gera frustrações. Saber que com o tempo vou perder a força e adquirir mais técnica é o mesmo que ter a consciência de que com o avançar da idade vou ficar mais madura e menos “gostosa”. Não sei se vou conseguir guiar uma via de 6º, 7º, 8º, ou pior 9º! Mas tenho certeza que continuarei escalando, porque é necessário determinação para continuar, e força de vontade para perder o medo.

 

Escrevi tudo isso porque é o que sinto toda vez que vou escalar. Sinto tudo, sempre. Sentir a dificuldade e a tristeza na escalada é quase um prelúdio de uma fase da qual quero a demora eterna de chegar. Mesmo com todas as dificuldades, estou me empenhando para continuar. Porque simplesmente eu amo escalar, sinto tesão, sinto orgasmo a cada lance… é quase uma poesia.

 

Por: Rebeca Barreto, escaladora de Petrolina.

Posted in:

2 Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *