Italianos – Foto: Marcela Chaves

 

Ah se todas as mulheres fossem como Marina….
Com sua auto estima, determinação, confiança na própria capacidade, doçura no olhar e no falar e grande companheira de cordada – nos ensina, através de seu exemplo, o quanto uma mulher é capaz…
Acredito que toda escaladora quer ser como Marina Mello… Conheçam esta mulher admiravelmente incrível!!!

Qual a sua idade?
71 anos

Nasceu em que cidade?
Em São Paulo, Capital, onde vivi até o final do ano 2000

Há quanto tempo está escalando?
Escalada em muro comecei em 1998. Na rocha, desde 2001, quando me mudei para o Rio.

E como foi que começou?
Sempre gostei de estar na natureza e da adrenalina de novas aventuras. Voei de balão e asa-delta, pulei de pára-quedas… Em 1997, um amigo americano me levou para fazer uma escaladinha em Table Rock, Carolina do Norte (EUA). Fiquei tão entusiasmada que, quando voltei para São Paulo, fiz um curso básico de escalada com o instrutor Ruy Fernandes, na academia Jump. Treinava sempre no muro. Quando vim morar no Rio, procurei entrar em contato com pessoas que escalassem. Fiz amizade com um grupo ótimo e com eles comecei a me aventurar nas montanhas daqui. Depois entrei para o Cerj, e com os novos amigos ampliei as escaladas e trilhas pesadas. Também passei a treinar na Limite Vertical, e, com o Flávio Carneiro, fiz algumas vias mais técnicas, como o K2. Em 2002, me casei com o Joffre Telles, que passou a ser o meu grande companheiro na vida e nas montanhas.


Começo da subida para o Aconcágua em 2001 e na Invasão Feminina do Rio de Janeiro em 2010

 

Faz algum tipo de treinamento? E alimentação?
A vida inteira fiz ginástica. Atualmente, faço circuito e pego firme na musculação, importantíssima na minha idade. A alimentação em casa é super saudável: muita salada, legumes, peixe, filezinho de frango, arroz integral, frutas… Já nos finais de semana não temos restrições. Adoro fazer um almoção para a família!

Você tem quatro filhos fantásticos, mas só uma é escaladora, a Adriana Mello… Pode nos falar um pouco dessa experiência de ir para a montanha com a filha?
É uma das melhores coisas na minha vida! Me orgulho muito de ver a competência e prudência da Adriana nas escaladas. Subir uma via junto com a minha filha, as duas compartilhando os desafios, curtindo a pedra, os visuais fantásticos, chegando a um cume… Tem coisa melhor???


Escalando com a Adri – na 29 de Dezembro

 

Quem levou quem para o esporte, você ou Adriana?
Eu comecei primeiro. Adorava escalar e sabia que a Adriana, por seu físico e temperamento, também iria se amarrar nesse esporte. Em 2002, ela foi comigo na Abertura de Temporada, e eu a apresentei aos amigos do Cerj. Conversa vai…..a Adri acabou fazendo o curso básico. Pronto! Também foi picada pelo ‘bichinho da pedra’, e virou uma grande escaladora… Passou longe a mãe.. !!!

Quais as montanhas que já conheceu? Gostaria que falasse da sua ida ao Aconcágua…
Aqui no Rio, escalei praticamente todas as montanhas que desejava: Pão de Açúcar, Urca, Babilônia, Corcovado, Pedra da Gávea, Agulhinha, Irmão Menor… e outras em Niterói, Serra dos Órgãos e Itatiaia. Lá fora, subi várias montanhas na Argentina, no Chile e na Bolívia.
O Aconcágua foi a minha estréia na alta montanha – a experiência mais difícil e mais fantástica que vivi. Fui em 2001, com o Aníbal Sciarretta, Emanuel Nunes Silva e Gustavo Telles (filho do Joffre). Eu ainda nem era montanhista…mas treinei pra valer durante seis meses e parti para a aventura. Cheguei até Nido de Condores (5.400m de altitude), quando uma tempestade com nevasca e ventos violentos nos obrigou a descer para o acampamento-base. Na segunda tentativa, eu estava cansada demais, e decidi descer. Não fiz o cume, mas o que vivi naquela montanha gigantesca foi incrível. As subidas duríssimas, a exaustão provocada pela altitude, frio de 35 graus negativos, mudanças de tempo extremas… Mas, acima de tudo, a beleza dos cenários, as cores incríveis, o companheirismo, a imensidão da Cordilheira se estendendo abaixo de nós… Inesquecível!! Como sou jornalista, a aventura virou uma reportagem na revista Cláudia:”Uma mulher no Aconcágua”, e rendeu algumas palestras que fiz em São Paulo.


Conquistando a 29 de Dezembro – Foto: Joffre Telles

 

Tem uma via no Leme que é uma conquista sua e do Joffre. Como foi esta conquista?
A maior curtição!!! Na época (2005) era permitido escalar dentro do Forte do Leme. Escolhemos uma parede linda. Adorei a adrenalina de nos prendermos a cliffs, bater cada grampo manualmente e ir conquistando a ‘nossa via’, até chegar ao cume. O nome dela é “29 de dezembro”, uma data muito especial para nós.

Quero muito que nos conte sua ida ao Dedo de Deus e à via dos Italianos…
Foram dois momentos maravilhosos! Desde que vi o Dedo de Deus pela primeira vez, pensei na sensação que deveria ser escalar aquela montanha mágica…. mas achava que era areia demais pro meu caminhãozinho… Até o dia em que isso aconteceu! O Joffre e eu subimos a trilha um dia antes e dormimos na base da via. No dia seguinte, a Adriana foi nos encontrar com o Arthur (da Urca), que guiou nossa escalada. Que fantásticas as chaminés! A passagem da “Maria Cebola”…e o arrepiante rapel no abismo! Não dá para descrever a felicidade de chegar ao cume com minha filha e meu marido e nos abraçarmos, rodeados por aquele visual deslumbrante!!!!!
Escalar o Pão de Açúcar pela via dos Italianos…foi outro sonho realizado. O relato mais detalhado da escalada está em um depoimento, neste site. Desde que cheguei ao Rio, cada vez que via de longe a figurinha minúscula de um escalador subindo aquele paredão impressionante, eu pensava: será que um dia vou conseguir? Pois consegui!!! Foi um enorme desafio, para mim, encarar essa via vertical, que exige tanta força, e vencer os lances mais difíceis. Chegar ao cume e encontrar o Joffre, que subiu pelo Costão para me esperar, foi uma emoção tão grande que nem cabe em palavras…. E digam: tem jeito melhor para comemorar os 70 anos?

O que te fascina na escalada?
Estar na pedra, para mim, é um prazer enorme. Acho o máximo me integrar à montanha, sentir a rocha, estudar a via, procurar cada agarrinha onde colocar a mão ou o pé, ir subindo… E nas paradas, apreciar o cenário maravilhoso em volta: o mar, a floresta, as pequenas flores, as ilhas ao longe… tudo isso na companhia de nosso parceiro de cordada. Seja escalando ou subindo uma trilha pesada, na montanha a gente fica zen… esquece os problemas, as preocupações… É o lugar onde me sinto mais perto de Deus.

Quer deixar um recado pra mulherada?
Meninas, não fiquem só sonhando. Corram atrás dos seus sonhos, não tenham medo de enfrentar desafios. Vivam intensamente cada dia, cada bom momento!!! 
O tempo é inexorável… mas não se deixem “ficar velhas”. Em qualquer idade, a gente pode se apaixonar, fazer planos, superar obstáculos, ser feliz… e, dentro do nosso limite, subir montanhas!


Com o Joffre, no Pão de Açúcar – Momento feliz

 

Entrevista concedida ao Site Mulheres na Montanha

Feita por  Rosane Camargo